Tá rindo de quê?

Não costumo escrever sobre assuntos atuais no calor do momento. É aquela velha história de tentar evitar algum julgamento equivocado, só porque todo mundo está falando. Entretanto, acho que está na hora de falar um pouco sobre piadas, humoristas, senso de responsabilidade e outros coisas do gênero.

A língua comprida de Rafael Bastos causou certo mal estar na mídia e abriu um debate tão pertinente quanto chato: os limites do humor. Na minha opinião fecal, o humor deve ter algum propósito além do fazer rir. Vejamos:

O humor pode ser entretenimento: Uma comédia pode fazer o tempo passar mais rápido, distrair dos problemas, relaxar a mente e o corpo. Alguém deprimido pode começar a encontrar forças para reagir.

O humor pode ser crítico: fazer pensar sobre alguns problemas sociais, políticos, econômicos. Pode dar uma outra visão, tentar uma nova abordagem, descobrir alguma coisa que estava na cara e ninguém viu.

O humor pode revelar traços de personalidade, verdadeiros ou não. Os estereótipos da loira e do português burro, do corintiano maloqueiro, do judeu que só pensa em dinheiro. Uma vez revelados, dão oportunidade para o protagonista provar o contrário.

O humor pode ensinar: A História, por exemplo, pode ficar muito mais fácil de digerir se contada de maneira engraçada. Por exemplo: na época da Revolução Farroupilha, Chico Bento Gonçalves enviou uma carta para Pedrinho II. Ele leu, leu, não entendeu nada, (provavelmente porque tinha uns 8 anos) e mandou: “Ô tio regente, lê aí e resolve pra mim“. Pronto. Sabemos que a Revolução Farroupilha aconteceu no período regencial, enquanto o Pedrinho II, não tinha nem pelo no saco idade para governar.

A “piada” envolvendo V(W)anessa Camargo e seu filho que está para nascer não atende nenhuma das propostas acima. Foi vazia, sem timming e, principalmente, sem graça nenhuma.

Algo que ainda ninguém conseguiu me explicar é se o comentário infeliz estava ou não no roteiro do programa. Se não estava, bem… foi fruto de um impulso que não há forma de bloquear, principalmente num programa ao vivo. O cara é adestrado para tentar achar uma graça em qualquer assunto. Muito mais grave é se estava previsto no roteiro. Alguém criou, escreveu, pensou. Outro alguém leu, gostou, validou. É premeditado. É inaceitável.

O fato de ter vazado numa emissora de televisão – uma concessão pública – também pesa. Pensemos num profissional autônomo. Se você contrata e não gosta do serviço do cara, não vai contratar novamente. Assim, Bastos é livre para falar a asneira que quiser em seu espetáculo solo (desde que não seja crime, óbvio). A demanda vai acusar se o serviço não estiver agradando. Quando o equívoco acontece sob a responsabilidade de um patrão – que tem anunciantes que pagam suas contas – a coisa muda de figura. O buraco é mais embaixo.

Não podemos esquecer as comparações com o humor americano. Há o argumento que nos Estados Unidos tudo é permitido, que lá os “alvos” do humor são mais receptivos e etecétara e tal. De fato, os políticos e as celebridades conseguem rir mais de si mesmos do que no Brasil, mas isso não significa que cada um faz o que bem entende, sem consequências.

Basta ver o que aconteceu com Hank Williams Jr, cantor que há VINTE ANOS é (ou era) o responsável pelo hino de abertura do Monday Night Football, um dos eventos mais assistidos no país. Ele apenas comparou Obama, o presida gente boa, a Hitler, aquele do bigodinho. Foi demitido sumariamente e a música defenestrada da programação. Sem advertência. Na lata. E o próprio cantor reconheceu que a analogia foi extrema.

Não creio que Rafael Bastos vá mudar a forma com que faz humor, até porque suas atuações no Proteste Já e principalmente em A Liga são dignas de aplauso. Só que não apenas ele, mas todos os humoristas tem que estar cientes que a desculpa do humor não pode servir de armadura para blindar toda e qualquer opinião, que, como tal, tem suas consequências.

Do que estamos rindo, afinal?

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