O charmoso Grito do Ipiranga

Naquele longínquo ano de 1822, era D. Pedro o responsável por cuidar da quitanda chamada Brasil. Seu pai, o gorducho D. João, tinha raspado os cofres da Corte e voltado de mala e cuia para Portugal, após um período de paz e tranqüilidade nos trópicos. Ah, as férias!

Certo dia, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça – o melhor amigo que um homem poderia ter, afinal, não é todo mundo que pode contar com alguém especializado em marcar festas e, principalmente, arrumar mulheres dispostas a… divertir o patrão – disse a Perdão:

Pô Pedrão… lá em Santos tem um menino da base surgindo. O moleque é bom de bola e tem grande potencial midiático. Bora lá? Você aproveita e inspeciona as nossas defesas marítimas, assim ninguém enche o saco“.

Excelente ideia, Chalaça. Arrume a tropa. Tô precisando de uma praia diferente, mesmo“.

E partiram no lombo da mula para Santos, em direção a Vila Belmiro. Bem… o jogo não foi lá aquelas coisas (dizem as fontes históricas que o menino caia demais) e as fortificações não estavam lá aquelas coisas, mas passaram na revista.

No dia anterior a volta, uma belo almoço foi organizado em honra de D. Pedro. A ideia, claro, foi do Chalaça. E dá-lhe feijoada, cerveja, torresminho frito, vinagrete, farofa. Foi um almoço digno de chamar um guindaste para mover os participantes.

Na manhã do dia 7 de setembro, bem cedo, a viagem de volta começou. A subida, que já era lenta devido a íngrime subida, ficou ainda mais comprometida com a digestão do dia anterior. Pedrão suava, sentia a barriga borbulhar. Nem chazinho de folha de goiabeira resolvia o problema. Não foram poucas as vezes que o matagal foi mais amigo que o próprio Chalaça. Folia no matagal.

A subida da serra tinha sido cansativa, mas nada se comparava às 8 horas de caminhada pelo planalto. E como desgraça pouca não vem sozinha, ao final da caminhada ela veio a galope. A trupe vinda do Rio de Janeiro, que fazia as vezes de carteiro (que estavam, pra variar, em greve), trouxe 3 cartas. D. Pedro leu, mas estava morrendo de vontade de usar como substituto das folhas que até então era sua salvação.

A primeira, do Zé Bonifácio, dizia: “Ó Pedrão, se liga na parada. Vi no Twitter do Capitão um check in no Foursquare lá no porto de Lisboa com outros 7.100. Parece que os homi tão vindo pra cá. Na boa… ou você declara “saporra”  – com todo o respeito, majestade – independente ou vai virar rapariga dançarina do vira nas cadeias de Portugal”. Pedrão terminou a leitura e deu um sorriso de canto de boca.

A segunda, de D. Leopoldina, terminava com: “Deixa de ser bunda mole e faça o que tem que fazer“. D. Pedro ergueu levemente a sobrancelha esquerda.

A terceira era da chefe das cozinheiras do palácio imperial. Dizia: “Tudo o que você puder carregar de farinha, café, ovos e frutas. Traz da banca do seu Joaquim, é a melhor que tem no Mercadão“. Pedrão pensou no sanduíche de mortadela, mas sua barriga rugiu, demonstrando o mais profundo desespero.

Pedrão respirou fundo. Olhou para lado e viu um soldado de sua guarda de honra limpado o salão com o dedo indicador. Olhou para outro e viu parte de sua tropa chutando pedrinhas no chão. Olhou para o padre Belchior e perguntou o que deveria fazer. O padre Belchior respondeu: “Você é um rapaz latino americano, com parentes importantes. Faça a sua história“.

Pedrão então bateu o martelo: “Seguinte pessoal. A coisa tá feia e o bicho tá pegando. Todo mundo acha que eu sou um moleque, ninguém me respeita. Então tá na hora daquele povo de Portugal ver quanto vale esse moleque. Aqui… pode espalhar pra todo mundo que somos livres. Essa porra é nossa e ninguém vai botar banca nas minhas quebradas. Papai e todos os outros lá em Portugal vão ter que me engolir!”.

Fez-se um silêncio sepulcral.

Porra… ninguém vai me apoiar? Tá todo mundo se cagando de medo? E eu achando que o cagão da expedição aqui era eu!

É que… majestade… você está esquecendo de alguma coisa. Falta aquela frase lá“.

Frase? Que frase? Pera aí, deixa eu consultar o roteiro. Bla-bla fica com vontade de evacuar… humm… recebe a carta… tá…humm.. er.. ah, aqui! Gri-ta in-de-pen-dên-cia ou mor-te”.  Era isso? Só isso? Então tá…

As mãos dos soldados lentamente se dirigiram as bainhas

Declaro o Brasil livre de Portugal. INDEPENDÊNCIA OU MORTE!

Documentário gravado ao vivo

INDEPENDÊNCIA OU MORTE!” gritaram todos, brandindo suas espadas no ar. Nesse instante o Pedro Américo tira uma foto.

Pedrão, ainda um pouco inseguro, cochichou ao pé do ouvido do Chalaça: “Tá, beleza, o que faremos agora?

Eis que o Chalaça responde, encerrando esse capítulo: “Isso, Majestade, é outra história“.

Fonte: Os dados verdadeiros foram retirados do livro “1822”, de Laurentino Gomes.

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