Esclarecendo o caso USP (pra quem vê de fora)

Recebi o seguinte e-mail da amiga e colaboradora desse blog, Tatiana Romeiro. Ela é estudante da USP, campus Ribeirão Preto e diz: “Estou mandando o que 3 alunos da USP de SP (2 da ECA e a outra jornalista do Jornal do Campus) que estão mais perto dos ocorridos escreveram sobre o assunto. VALE A PENA LER! Acho justo ouvir o que os alunos realmente querem (…)

Eis o texto:

“Somos alunos da ECA-USP e visto a falta de imparcialidade da mídia com referência aos últimos acontecimentos ocorridos dentro da Universidade de São Paulo, cremos ser importante divulgar o cenário real do que realmente se passa na USP. Alguns fatos importantes que gostaríamos de mostrar:

– O incidente do dia 27/10/11, quando 3 alunos foram pegos portando maconha, NÃO foi o ponto de partida das reivindicações estudantis. Aquele foi o estopim para insatisfações já existentes.

– Portanto, gostaíamos de explicitar que a legalização da maconha, seja dentro da Cidade Universitária ou em qualquer espaço público, não é uma reivindicação estudantil. Alguns grupos até estão discutindo essa questão, mas ela NÃO entra na pauta de discussões que estamos tendo na USP.

– Os alunos da USP NÃO são uma unidade. Dentro da Universidade há diversas unidades (FFLCH, FEA, Poli, etc.) e, dentro de cada unidade, grupos com diferentes opiniões. Por isso não se deve generalizar atitudes de minorias para uma universidade inteira. O que estamos fazendo, isso no geral, é sim discutir a situação atual em que se encontra a Universidade.

– O Movimento Estudantil, responsável pelos eventos recentes, NÃO é uma organização e tampouco possui membros fixos. Cada ação é deliberada em assembleia por alunos cuja presença é facultativa. O que há é uma liderança desse movimento, composta principalmente por membros do DCE (Diretório Central dos Estudantes) e dos CAs (Centros Acadêmicos) de cada unidade. Alguns são ligados a partidos políticos, outros não.

– Portanto, os meios pelos quais o Movimento Estudantil se mostra (invasões, pixações, etc.) não são decisão de maiorias e, portanto, são passíveis de reprovação. Seus fins (ou seja, os pontos reais que são discutidos), no entanto, têm adesão muito maior, com 3000 alunos na assembleia do dia 08/11.

– Apesar de reprovar os meio usados pelo Movimento Estudantil (invasões, depredação), não podemos desligitimar as reivindicações feitas por esses 3000 alunos. Os fatos não podem ser resumidos a uma atitude de uma parcela muito pequena dos universitários.

Sabendo do que esse movimento NÃO se trata, seguem suas reinvidicações:

DISCUSSÃO DO CONVÊNIO PM-USP / MODELOS DE SEGURANÇA NA USP

A reivindicação estudantil não é: PM FORA DO CAMPUS, mas antes SEGURANÇA DENTRO DO CAMPUS. Os estudantes crêem na relação dessas reivindicações por três motivos:

A PM não é o melhor instrumento para aumentar a segurança, pois a falta de segurança da Cidade Universitária se deve, entre outros fatores, a um planejamento urbanístico antiquado, gerando grandes vazios. Iluminação apropriada, política preventiva de segurança e abertura do campus à populacão (gerando maior circulação de pessoas) seriam mais efeitas. Mas, acima de tudo…

A Guarda Universitária deve ser responsável pela segurança da universidade. Essa guarda já existe, mas está completamente sucateada. Falta contingente, treinamento, equipamento e uma legislação amparando sua atuação. Seria muito mais razoável aprimorá-la a permitir a PM no campus, principalmente porque…

A PM é instrumento de poder do Estado de São Paulo sobre a USP, que é uma autarquia e, como tal, deveria ter autonomia administrativa. O conceito de Universidade pressupõe a supremacia da ciência, sem submissão a interesses políticos e econômicos. A eleição indireta para reitor, com seleção pessoal por parte do governador do Estado, ilustra essa submissão. O atual reitor João Grandino Rodas, por exemplo, era homem forte do governo Serra antes de assumir o cargo.

POSTURA MAIS TRANSPARENTE DO REITOR RODAS / FIM DA PERSEGUIÇÃO AOS ALUNOS

Antes de tudo, independentemente de questões ideológicas, Rodas está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo por corrupção, sob acusação de envolvimento em escândalos como nomeação a cargos públicos sem concurso (inclusive do filho de Suely Vilela, reitora anterior a Rodas), criação de cargos de Pró-Reitor Adjunto sem previsão orçamentária e autorização legal, e outros.

No mais, suas decisões são contrárias à autonomia administrativa que é direito de toda universidade. Depois de declarar-se a favor da privatização da universidade pública, suspendeu salários em ocasiões de greve, anunciou a demissão em massa de 270 funcionários e, principalmente, moveu processos contra alunos e funcionários envolvidos em protestos políticos.

Rodas, em suma: foi eleito indiretamente, faz uma gestão corrupta e destrói a autonomia universitária.

Você pode estar pensando…

MAS E O ALUNO MORTO NO ESTACIONAMENTO DA FEA-USP, ENTRE OUTRAS OCORRÊNCIAS?

Sobre o caso específico, a PM fazia blitz dentro da Cidade Universitária na noite do assassinato. Ainda é bom lembrar que a presença da PM já vinha se intensificando desde sua primeira entrada na USP, em Junho/2009 (entrada permitida por Rodas, então braço-direito de Serra). Mesmo assim, ela não alterou o número de ocorrências nesse período comparado com o período anterior a 2009. Ao contrário, iniciou um policiamento ostensivo, relugarmente enquadrando alunos, mesmo das unidades nas quais mais estudantes apoiam sua presence, como Poli e FEA.

MAS E A DIMINUIÇÃO DE 60% NA CRIMINALIDADE APÓS O CONVÊNIO USP-PM?

São dados corretos. Porém a estatística mostra que esta variação não está fora da variação anual na taxa de ocorrências dentro do campus ( http://bit.ly/sXlp0U ). A PM, portanto, não causou diminuição real da criminalidade na USP antes ou depois do convênio. Lembre-se: ela já estava presente no início do ano, quando a criminalidade disparou.

MAS, AFINAL, PARA QUE SERVE A TAL AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA?

Serve para que a Universidade possa cumprir suas funções da melhor maneira possível. De maneira simplista, são elas:

– Melhorar a sociedade com pesquisas científicas, sem depender de retorno financeiro imediato.

– Formar cidadãos com um verdadeiro senso crítico, pois mera especialização profissional é papel de cursos técnicos e de tecnologia.

Importante: autonomia universitária total não existe. O dinheiro vem sim, do Governo, do contribuinte, porém a autonomia universitária não serve tirar responsabilidades da Universidade, mas sim para que ela possa cumprir essas responsabilidades melhor.

COMO ISSO ME AFETA? POR QUE EU DEVERIA APOIA-LOS?

As lutas que estão ocorrendo na USP são localizadas, mas tratam de temas GLOBAIS. São duas bandeiras: SEGURANÇA e CORRUPÇÃO, e acredito que opiniões sobre elas não sejam tão divergentes. Alguém apoia a corrupção? Alguem é contra segurança?

O que você acha mais sensato:

– Rechaçar reivindicações justas por conta de depredações e atos reprováveis de uma minoria, ou;

– Aderir a essas mesmas reivindicações, propondo ações mais efetivas?

Você tem a liberdade de escolher, contra-argumentar ou mesmo ignorar. Mas lembre-se de que liberdade só existe com esclarecimento.

Espero ter contribuído para isso.

Bárbara Doro Zachi

Jannerson Xavier Borges

3 pensamentos sobre “Esclarecendo o caso USP (pra quem vê de fora)

  1. Acho louvavel que eles lutasem pelos direitos deles, porém partirem para acreções, vandalismo, ações ante democraticas que todos nos presenciamos e agora veem querendo dizer que eles agiram certo e que estão no pleno direto deles democratico e o direto democratico dos outros como fica, somente o deles é que prevalecem, acho que eles deveriam ter aprendido com o pessoal antigo que lutaram pelos diretos democraticos deste pais durante o governo militar, e que hoje eles estão desfrutando (que não estão merecendo desfrutar deste direito democratico) pois o pessoal antigo usou de mais sabedoria do que eles, eles nunca procurarão acredir a democracia como estes estudandes da USP o fizeram, é vergonhoso as ações cometidas por estes estudantes antidemocraticas. (Socialismo, Comunismo, Imperialismo, Parlamentarismo etc… não chega aos pes de um governo pleno de DEMOCRACIA, onde os diretos em ambos os lados são respeitados), e se o entendimento destes estudante da USP é esse que eles demonstraram com tanta furia de destruição, então que volte o GOVERNO MILITAR NOVAMENTE FICARIA MELHOR O PAIS ,DO QUE SE APRESENTA ATUALMENTE (Eu lutei contra a ditadura).

    Salmista

    • Então, Renato… eu concordo parcialmente.

      É claro que o vandalismo, a baderna e a violência não são aceitáveis. Inclusive, como diz o texto dos alunos, eles são CONTRA ISSO.

      Eu só discordo quando você diz que aqueles que lutaram contra a ditadura foram mais sábios. Tiros, bombas, assaltos e sequestros não são exatamente as coisas mais inteligentes do mundo, ainda que o governo da época não fosse democrático.

  2. Prezados,

    Como a Bárbara Doro Zachi, Jannerson Xavier Borges, expuseram tão bem, não podemos generalizar os fatos da USP. Temos de um lado, pessoas sérias, com colocações coerentes e até prova em contrário, reais. Digo isto, pois não sei as fontes dos estudos.

    Entretanto, percebo algo, que classifico como uma falha, por partes dos “não baderneiros”: Eles foram infelizes no momento de fazer o levante deles. Não é segredo para ninguém, que principalmente nos jovens daquela faixa etária, há uma enorme carência/deficiência de seres pensantes. Ao levantar a bandeira contra Rodas, ou elementos da gestão rodas, em um momento tão delicado, ela ridicularizou o próprio movimento. Afinal, para o PLANETA inteiro, os 3000 estudantes, fruto do estouro de manada que pessoas como Bárbara e Jannerson causaram, estão brigando com a polícia, para poderem fumar seu baseado em paz.

    Acho inadmissível, o uso da força para impor sua vontade. Manifestações, são válidas, mas as pacíficas. Do contrário, se fizermos vista grossa para vandalismo, depredação, consumo de entorpecentes, porque não faze-lo para homicídios, estupros e etc..?

    Renato,

    O pessoal “antigo”, se orgulha pelas conquistas, não pelos meios. Como você mesmo classificou-os: eles eram de outra época, outra situação. Naquele caso em questão, tratou-se de uma guerra de libertação, por isto, usaram outras técnicas. Eles foram muito mais violentos que os meliantes da facção U.S.P. Porém, eles lutavam pela liberdade de uma nação. Não se esqueça disto.

    Democracia? Socialismo? Presidencialismo? Todos lindos no papel. Mas, utópicos na vida real. No momento em que deixamos de precisar… precisar de abrigo, de alimentos, de peles, de sementes. E passamos ao nível de ter em abundância, fartura, ao ponto do supérfluo, os mais “espertos” tomaram as rédeas da situação na mão e uma minoria, faz como bem entende, sempre “atendendo” à minoria. Então, não confunda: política, não deixa espaço para a participação do povo. QUALQUER QUE SEJA O NOME DADO A SUA FORMA.

    (Como conheço Frank e sei que ele pode apontar uma contradição, quando defendi os “anos dourados/luta contra ditadura), eles lutaram para que não fossemos oprimidos socialmente, não para que fossemos donos dos nossos próprios narizes. Tipo assim, pode sair a noite e ouvir a música que quiser, mas não me venha com esta palhaçada de dizer que quer participar das decisões pátrias.

    Abraços,

    Gustavo.

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