Janelas

Me debrucei sobre o parapeito daquela janela e mirei o horizonte cheio de casas, montanhas, ruas, carros… vida. Um lágrima escorreu do meu olho esquerdo e dei uma leve sorriso. Não estou acostumado a chorar. Mas aquela lágrima foi inevitável. Pensei no emprego que tinha acabado de perder, nas coisas horríveis que meu patrão, digo, ex-patrão me falou. Coisas injustas, humilhantes.

Pensei também nas contas a pagar, em tudo o que eu teria que abrir mão naquele momento. Luxos, supérfluos. Pensei na festa de aniversário da minha filha. Na festa que ela não mais teria. Outras tantas lágrimas lavaram meu rosto. Combinavam perfeitamente com o coração apertado e aquele nó na garganta. Como explicar? Como simplesmente dizer que “papai não tem dinheiro”? Como negar um doce, um bolo, um presente?

O céu ia sendo pintado com cores que só a paleta de um Artista seria capaz de criar. Enxuguei as lágrimas na manga da camisa, respirei fundo e dei as costas para aquela janela. Prometi a mim mesmo que só olharia para aquela paisagem novamente quando minha vida estivesse refeita. No dia que eu pudesse dizer sim aos desejos mais justos de minha filha.

Passou-se dias, meses… anos? Não sei ao certo.

Só sei que percebi que estava na hora de cumprir aquela minha promessa. Me debrucei no parapeito daquela janela, olhei para uma paisagem muita parecida com aquela que tinha visto outrora e mais uma teimosa lagrima escorreu pelo meu rosto. Ventava. Dessa vez a lagrima pulou feliz, foi libertada do cativeiro na qual a mantive todo esse tempo.

Eu recuperei meu emprego. Quer dizer… fui contratado pela empresa concorrente. Comecei debaixo, ganhando menos do que gostaria e menos ainda do que merecia. Dei uma boa ideia aqui, outra ali. Ganhei a confiança dos meus superiores. Fui subindo de cargo. Voltei a ser eu mesmo.

Numa daquelas jogadas que a vida reserva no tabuleiro da existência minha empresa comprou minha ex-empresa. Virei chefe do meu antigo patrão. Juro que fui o mais profissional que consegui, mas ele não aguentou a humilhação (qual humilhação eu não sei, mas, enfim…). Com o ego ferido, pediu as contas.

Hoje aquelas montanhas, árvores, ruas e carros não olham um homem derrotado pelas circunstâncias da vida, mas sim alguém que fez da janela uma porta para ser outra pessoa. Cujos desafios sequer imaginava da última vez.

Que artista imaginaria os contornos que a vida traçou para, naquele momento, estar olhando aquela paisagem novamente? E, pensando nisso, quais caprichos estariam reservados para mim, quando, finalmente, olhar pela janela mais uma vez?

Pela última vez?

4 pensamentos sobre “Janelas

  1. Se alguem já lhe falou que você não é um escritor ou um poeta, posso dizer que estas pessoas não tem a minima sensibilidade para entender de poesia, contos etc… Pois a meu ver és um natural escritor e poeta com muita sensibilidade.
    Felicito-lhe pela postagem muito profunda.

    FELIZ NATAL E PROSPERO ANO NOVO

    Renato Moreeuw

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