Bala na agulha, na barba do bode. Campainha da sorte.

Esse texto era pra ter saído dia 25 de dezembro, mas resolvi aguardar a virada de ano para colocá-lo nessas mal traçadas linhas.

O Natal é uma data mágica. Tão mágica que posso começar esse texto com “entrevistamos Papai Noel“. Explico.

Aqui em Itatiba, Luiz Ordine faz as vezes de bom velhinho desde 1959 e distribui balas pelas ruas da cidade. Naquele tempo, seu Ordine usava barba de bode – bode de verdade – óculos da avó e capa costurada pela mãe. Subia no coreto da praça e jogava caramelo, sem papel mesmo, para os transeuntes. Hoje ele visita escolas, que já garantem sua presença logo em fevereiro.

Seu Ordine já apareceu nesse blog em dois outros textos e, no mais recente, as renas que ele mesmo fabrica são o personagem principal. Sim, as renas perfeitas fazem parte de toda a decoração, dão um clima diferente ao evento…

Natal no interior tem dessas coisas. Quem diria que a pessoa que lida diariamente com a morte (e lucra com ela) fosse o responsável por simbolizar o Natal, que é vida? E, mais do que isso, ser ele o responsável pelas cenas mais marcantes dessa época: distribuição de balas?.

Fiquei abismado com a empolgação com que as pessoas reagem à passagem do carro do Papai Noel. Os frentistas do posto de gasolina (de onde mais seriam, né? Do açougue, por um acaso?) simplesmente abandonaram o posto (rá) de trabalho e correram para o meio fio, todos desesperados por recolher as balas que jaziam no chão. Imagine 4 ou 5 rapagões uniformizados andando de 4 e recolhendo balas?

E a cena se repete por onde passa o velho barbudo. Crianças, senhoras e senhores, lojistas, transeuntes em geral. É O acontecimento do Natal. Tanto é que até a apresentação do Programa Voz e Vez  – ao vivo –  meus colegas abandonaram só porque um caminhão lotado de doces passou pela rua!

Só um caminhão lotado de doces? Bem, vou ter que reformular. O caminhão estava, na verdade, lotado de sonhos, desejos, esperanças. A tradição do arremesso de balas (que de vez em quando resultam em cabeças doendo) é exatamente o que representa uma cidade do interior.

Da mesma forma, a passagem de ano conserva a tradição do Bom Princípio. No primeiro ano que tive contato com esse costume, fui acordado as 6 da manhã do dia 1° de janeiro por um bando de crianças que tocavam desesperadamente a campainha. “Tio, dá Bom Princípio? Bala! Bala!“.

Primeiro: tio é a aquela digníssima senhora que te pariu. Segundo: quem desejaria um bom princípio sendo acordado tão cedo logo no primeiro dia do ano? Baita vontade de xingar, viu…

No ano seguinte, a revanche: desligamos a campainha. WIN! As palmas não foram suficientes para me tirar do… hã… embalsamento em vinho e espumante barato. As crianças cansaram em foram investir seu tempo em outra freguesia.

No terceiro ano, a tréplica. Os putos apareceram 1 da manhã (!!), enquanto eu aguardava a transmissão de Times Square. Jura mesmo que as balas são tão importantes assim, que justifiquem deixar a criançada solta 1 da manhã, com um monte de bebum dirigindo enlouquecidamente?

Apesar da minha aparente revolta, eu gosto dessas tradições. Elas dão um charme todo especial para a época que encerra o ano. Espírito natalino de raiz a gente vê por aqui. Talvez seja um pouco disso que falta às cidades mais desenvolvidas, frenéticas.

Vamos refletir sobre nossas tradições, tentar resgatá-las? Ninguém perde com isso.

Ao contrário… todo mundo ganha.

2 pensamentos sobre “Bala na agulha, na barba do bode. Campainha da sorte.

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