The American way of speech

Lá vem o Negão, cheio de paixão…

Quando a madrugada do dia 25 de janeiro dava seus primeiros passos aqui no Brasil, o Presidente dos Estados Unidos entrava no Congresso americano para fazer um tradicional discurso, chamado lá de State of Union.

Em resumo, é a oportunidade anual e obrigatória do Presidente prestar contas do mandato (aos congressistas e a população) e revelar as perspectivas a curto, médio e longo prazo. Mais do que isso, é motivador, nacionalista e crítico. Nada é improvisado. Cada vírgula é colocada e ensaiada, numa coreografia de precisão cirúrgica.

Amigos leitores, com o perdão da expressão, Obama pôs o pau na mesa. Foda ba garai. Leia o discurso completo, em inglês, no blog do Rodrigo Lopes, bom repórter da RBSObviamente, foi impossível não abrir comparações entre o modelo estadunidense de governar e o tupiniquim nosso de cada dia.

Começa pela obrigatoriedade. Tá na sagrada Constituição deles que o cidadão que estiver jogando X-Box no Salão Oval deve comparecer ao Capitolio para trocar umas ideias com os manos engravatados. Aqui no Brasil é raro ter uma coletiva de imprensa (raríssimo). Os pronunciamentos são curtos, engessados e… gravados. Ir ao Congresso? Só no Dia da Posse…

A obrigatoriedade força uma preparação. Ir até lá pra fazer algo meia boca não rola. Então, os assuntos são selecionados a dedo, com meses de antecedência. Planejamento!

Algo que me impressionou foi a capacidade de discurso de Barack Obama. Falou durante quase uma hora, sem necessitar voltar os olhos para o papel. De fato, se o Rodrigo Lopes não tivesse alertado, eu nunca teria percebido que usou-se o teleprompter (ainda tenho minhas duvidas…). FHC e Dilma não tem a oratória prejudicada… são articulados. Lula, então, nem se fala. Por que não usar? Precaução? Não precisar sair da zona de conforto dos discursos gravados? Não tem emoção! Não é um diálogo! Chega de interrogações e exclamações!!!!

Mais legal do que a capacidade oratória, é o tamanho do culhão (balls of steel) para dizer o que foi dito por Obama. Em itálico e negrito, minha tradução livre de trechos do discurso em inglês.

Está cada vez mais caro fazer negócios em países como a China […] Crio hoje uma comissão para investigar práticas desleais de comercio em países como a China. Eu não imagino ninguém aqui espetando um país vizinho nesses termos. E espetando com toda a razão, diga-se de passagem. Com as fábricas se transferindo para lá, aumenta o poder de controle chinês. E poder demais na mão de um só país nunca é bom.

Outro tapa com luva de boxe foi em Wall Street. Algo como não voltarei aos dias em que Wall Street criava suas próprias regras […] Portanto, se você é um grande banco ou instituição financeira, não está mais autorizado a fazer apostas arriscadas com o dinheiro dos seus clientes. Cabongada em quem tem dinheiro não é exatamente uma das especialidades da Situação. Aliás… muito pelo contrário.

Como se não bastasse, ele sabe que produtores de leite são capazes de conter um vazamento do seu produto, sem a necessidade de agências federais fungando no cangote, mas quer ter certeza que as companhias extratoras de petróleo são capazes de evitar o que vimos no Golfo [do México] há dois anos. Seria fantástico alguém chutar a canela da Petrobrás quando esta faz alguma besteira, mas não. Ninguém tem coragem pra isso.

E, finalmente, algo que não vejo possível no Brasil mais por culpa das militâncias partidárias cheias de mimimi do que dos próprios políticos. Obama disse: Sou Democrata. Mas acredito no que o Republicano Abraham Lincoln acreditava: O Governo deve fazer aquilo que as pessoas não são capazes de fazer melhor sozinhas e nada mais do que isso.

Cada país deve ser autônomo na maneira de gerir sua política. Cada Estado tem sua cultura, seu jeito de governar, construído passo a passo, dia após dia. Entretanto, isso não nos impede de observar e aprender com práticas de nossos co-irmãos. O Discurso do Estado da União viria bem a calhar num Brasil carente de debates positivistas e construtivos.

2012 é ano eleitoral nos EUA. E esse foi o discurso que pode ter decidido a corrida à Casa Branca a favor de Barack Obama. Segundo a Globo News, esse discurso fez a popularidade do presidente Clinton, na oportunidade, subir VINTE PONTOS PERCENTUAIS.

E, sinceramente, o Negão foi bem pra caramba.

8 pensamentos sobre “The American way of speech

  1. “The American way of speech” com relação o discurso de Obama você esta complena razão, concordo com tudo que você disse, porérm acho que nossos politiqueiros nunca irão dár o braço a torcer pois são mediucres e pobres de visão real de fazer uma politica que venha dár certo a favor do bem estar da nossa nação,
    infelizmente nossos politicos so pensão emencher a bura dos bolsos de dinheiro e que se dane a nação (ou melhor o povo).

  2. Concordo com tudo o que você disse. E seria ótimo e de extrema importância algo do tipo aqui na nossa terra. Mas quando você diz que “a obrigatoriedade força uma preparação” sou obrigada a concordar em partes. Isso funciona lá. No Brasil algo do tipo seria muito bom, desde que não fosse obrigatório. Tenho uma certa descrença em atos obrigatórios por aqui, já que geralmente são vistos como desnecessários e feitos de “qualquer jeito” como se dissessem: “ah, já que é obrigatório vamo fazê, mas termina logo pra ir tomar uma breja”. Vide a catástrofe do voto obrigatório.

    • Engraçado Nicole, eu vejo essa questão do obrigatório com os mesmos argumentos, mas com a conclusão no extremo oposto.

      Seria muito bom se o voto, por exemplo, fosse facultativo. Sinal de maturidade de uma nação. Mas eu acho que não daria certo aqui. Posso estar errado, mas vai estimular a compra do votos. Ou a permuta, pra ser simpático… Veja: se o cara não é obrigado a votar, talvez entenda como vantagem ganhar algo em troca do “trabalhão” que é sair de casa num dia de sol ou de chuva para apertar algumas teclinhas numa caixinha luminosa. Lei de Gerson…

      O cidadão consciente não vende o voto. Mas o que é ignorante (ou seja, aquele que ignora a importância de votar) vai achar muito lucrativo ganhar uma geladeira pra votar no Coroné…

      Agora eu te pergunto: aqui no Brasil não é obrigatório discursar no Congresso. Ninguém vai por que?

      • Não discordo da sua conclusão. E creio que a resposta esteja na própria pergunta: porque não é obrigatório.

        Obrigatoriedade é algo muito controverso. E se a mesma questão levanta muitos pontos a serem pensados mas não leva a resposta alguma, só pode significar que temos muito a amadurecer como país. E não só nós eleitores, votando conscientemente, mas também eles, que nos governam, com a noção de responsabilidade, certamente ausente na maioria de nossos congressistas.

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