De gênio e louco, Hitchcock tem um pouco.

Os atores não são gado. Eles têm que ser tratados como gado”. Frases estúpidas, atitudes cruéis com atrizes, piadas pornográficas, péssimo clima no set de filmagem. Choro. Algemas. Pneumonia. Uma combinação camarada dessas, em apenas um diretor, só poderia resultar em… clássicos históricos e ainda hoje cultuados da sétima arte. Por mais contraditório que possa parecer, era assim que trabalhava Alfred Hitchcock. Experimente ser escroto dessa forma em seu emprego… é “rua” sem pensar duas vezes.

Nos últimos meses fiz uma maratona de filmes do gordinho sinistro, dos mais celebrados aos menos famosos. Acho que não é necessário comentar sobre Psicose, Um Corpo que Cai, Os Pássaros e o meu favorito, Janela Indiscreta. Se você não viu e não sabe do que estou falando, corra atrás. Mas, enfim, amarrei os filmes à leitura de “Fascinado pela Beleza – Alfred Hitchcock e suas atrizes”, o terceiro livro da trilogia de Donald Spoto sobre Hitch… sem o “cock” (piada dele, a propósito). Para o meu azar, os dois primeiros não foram publicados em português. Ainda.

Dessa forma, quero comentar sobre alguns filmes que não são tão lembrados quanto deveriam. A extensa filmografia do Mestre tem pérolas quase inacreditáveis de tão boas. Recomendo que os assista. Não vou me estender nas resenhas de três para não tirar a graça dos filmes. Escolhi estilos bem distintos: comédia, suspense e ação.

o-terceiro-tiro

. P*** que pariu. Hitchcock. Sem mais.

O Terceiro Tiro (The trouble with Harry, 1955): O que fazer quando um tiro acidental mata um desconhecido? Os habitantes de uma pequena cidade em New England não estão lá muito preocupados, mas, definitivamente, não sabem o que fazer com ele. Muita gente não entendeu esse filme. Encare-o como uma comédia de humor negro e esqueça o suspense, o mistério. A fotografia é belíssima (repare como é colorida… esse é o tom) e a trilha sonora é das mais alegres. Um filme surpreendente.

A Sombra de Uma Dúvida (The shadow of a doubt, 1943): A vida segue monótona em uma típica família americana do interior, até que o tio Charlie chega da cidade grande. Ele é rico, inteligente, galã… mas esconde alguma coisa? Atuações perfeitas de Teresa Wright e Joseph Cotten. Repare no brilho dos olhos da atriz e a evolução desse olhar ao longo dos 108 minutos. O suspense permeia o filme todo, mas é uma pena que, assim como vários filmes de Hitchcock, o final seja rápido demais.

Cortina rasgada (Torn Curtain, 1966): Um cientista americano (Paul Newman) vai a um congresso de física com sua noiva, a bela Julie Andrews. As atitudes suspeitam forçam a também cientista a descobrir coisas que ela não gostaria. A principio achei o filme bem mais ou menos, mas, lembrando de várias cenas… que baita filme! O último terço é frenético e, mais de uma vez pensei: e agora? Como é que se sai dessa?

Aliás, essa é uma característica da filmografia de Hitch. De cara o filme não parece tão bom, mas à medida que você digere as cenas e entende o significado (os extras ajudam muito nisso), a história ganha outra avaliação. De fato, são filmes para ver duas vezes, pelo menos.

Há vários outros filmes, cada um com sua peculiaridade. Saboteur (1942), por exemplo, tem protagonistas péssimos e a história não é tão envolvente, mas os coadjuvantes (e a cena do cinema!) valem o filme todo. Em Topázio (Topaz, 1969), as cenas com o dono da floricultura são ótimas, assim como as filmadas em Cuba. Confesso que preferi o segundo final apresentado nos extras (mais audacioso que o original). Por fim, o trailer de Frenesi (Frenzy, 1972) é épico. A forma de filmar Festim Diabólico (Rope, 1948) é totalmente diferente do resto da filmografia. Uma obra de arte.

Alfredinho tinha seus fantasmas interiores e essa é a maior qualidade de “Fascinado pela Beleza”: por vezes contradiz e rebate afirmações do Mestre, mostrando outra face, desconhecida, sombria, e até irritante, muitas vezes mascarada pela qualidade dos filmes.

Atrás da câmera tinha um gênio. Perturbado, mas ainda assim, um gênio.

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